Influências do judaísmo e do paganismo no cristianismo moderno
O TEMPLO
De acordo com a narrativa bíblica, a origem do Templo é creditada a Davi quando sugere construir uma casa para a arca da aliança, um modelo substituto do Tabernáculo por um edifício permanente, 1 Cr 28.1-2. Porém, não foi Davi que levantou o Templo em Jerusalém, mas Salomão, seu filho, que foi escolhido por Deus para executar este grande empreendimento, 1 Cr 28.3-7.
A principal palavra hebraica para “templo” é hekal, “palácio, edifício grande” (cf. 1 Rs 21.1; Sl 45.8,15; Is 39.7). É uma palavra estrangeira incorporada do acádio ekallu, por sua vez importada do sumério E-GAL, “casa grande”. Além de suas referências ao Templo de Jerusalém, a palavra é usada para santuário de Siló (1 Sm 1.9; 3.3), para a morada de Deus nos céus (2 Sm 22.7; Sl 11.4; 18.6; Is 6.1) e para templos pagãos (Jl 3.5). O termo usado heb. Bayith, “casa”, é também frequentemente usado para templo, tanto para o templo de uma divindade pagã (Jz 9.46; 2 Rs 10.21 etc.) como para o Templo de Deus em Jerusalém (1 Rs 6.2-10; 2 Cr 35.20 etc.). (Wycliffe, 2010, p. 1893).
Mostramos, portanto, o significado da palavra Templo. Entretanto, há duas maneiras simples e objetivas de compreender esse sistema. O primeiro deles é a ideia do Templo como uma morada de Deus na terra. Israel acreditava que Deus estava presente nos Santos dos Santos de modo invisível, o que dava uma incomensurável importância ao Templo e aos sacerdotes um grande prestígio pela autoridade conferida. O segundo conceito trata pelo serviço que era prestado pelos sacerdotes e levitas no prédio – e sem esse ofício – o relacionamento de Israel com Deus poderia ficava praticamente perdido.
OS OFICIAIS DO TEMPLO
Apesar da considerável importância do prédio, é necessário ter o conhecimento dos cargos e da representatividade de cada um deles para a funcionalidade do Templo. Por esta razão, citaremos apenas os três mais importantes. O primeiro deles, de dentro para fora, encontramos o sumo sacerdote, um pequeno grupo limitado, afinal de contas, um único homem entrava no Santo dos Santos uma vez por ano e ali fazia expiação por seus próprios pecados e também pelo do povo, Lv 16.30. O segundo grupo eram um circulo de sacerdotes que consistia em receber os sacrifícios, inspecionar os animais trazidos para o Templo, cortá-los, aspergir o sangue, lançar as partes que deveriam ser queimadas sobre o altar, manter o fogo aceso, etc. Lv 4.5-34.
O terceiro e último grupo era formado pelos levitas. Com uma ordem semelhante à dos sacerdotes, eles eram os seus assistentes que geralmente revistavam os visitantes, preservavam a ordem na área exterior do Templo, se encarregavam de abrir e fechar os portões, de colocar a lenha no altar, recolher os dízimos, as ofertas e cuidavam das demais funções litúrgicas, 2 Cr 31.12-14.
Em geral, somente esses homens poderiam desempenhar o cumprimento da Lei com sacrifícios, oferendas e o recolhimento dos dízimos dentro do ambiente que pertencia ao Templo – cada um em seu devido lugar. Não havia atalho ou alguma brecha na Lei para realizarem estes exercícios em outros templos, cidades, praças, sinédrios ou em sinagogas.
O Dízimo
Os oficiais do Templo não haviam recebido do Senhor nenhuma parte da terra como herança a fim de se manterem, Dt 14.29, 18.1. O dízimo era o alimento que chegava até eles para que fossem não só sustentados, mas que permitisse uma vida separada da secular. Portanto, eles ficariam totalmente abdicados ao ofício do Templo representando o povo por meio das ofertas e sacrifícios ao Senhor.
Dir-lhes-ás: quando tiverdes separado o melhor do dízimo, o resto será para os levitas como o produto da eira ou do lagar: podereis comê-lo com vossa família, porque é o vosso salário pelo serviço que prestais na tenda de reunião. (Números 18.30-31) BDJ-EP. (ênfase adicionada).
O dízimo bíblico “na sua aplicação”, nunca teve relação nenhuma com o dinheiro. Observemos que ele era também comestível e servia como salário para os oficiais pelo serviço prestado no Templo ou na “tenda de reunião” – quando o ofício era ainda em tendas na época de Moisés e Davi.
A palavra hebraica ´asar, “dizimar” é derivada da palavra que significa “dez” e que também significa “ser rico”. [...] O dízimo de Israel consistia de um décimo de toda a produção anual de alimentos e do crescimento dos rebanhos de ovelhas e gado [...] um décimo de tudo que restava das “primícias de todos os frutos da terra”, [...] um décimo de toda a produção (safras, frutas, azeite, vinho) e de todos os animais deveria ser dedicado ao Senhor [...] era designado aos levitas [...] aos sacerdotes, que deveria ser levado ao Templo de Jerusalém [...] era consumido como refeição sagrada pelo ofertante e seus familiares, junto com o levita que está dentro das suas portas (DT 12.15). Se a distância era proibitiva, os dízimos podiam ser vendidos e o dinheiro usado para a compra de alimentos ou animais para servirem como ofertas em Jerusalém (cf. Dt 14.22-27). (Wycliffe, 2010, p. 572-573). (ênfase adicionada).
De acordo com a proposta do dízimo na citação anterior – que é segundo as Sagradas Escrituras – não se harmoniza com o que é professado hoje. Infelizmente, o recurso passou a ser articulado em “moeda corrente” para o sustento do líder ou para uma cúpula religiosa de uma comunidade – o que fere diretamente nos princípios da Lei mosaica estabelecida pelo Senhor.
Na verdade, isto pode ser um grande problema exegético. Observamos que dízimo nunca teve relação com dinheiro “na sua aplicação” de acordo com o Antigo Testamento. Entretanto, apresentamos três argumentos importantes pelo qual o dízimo era articulado, (1) o dízimo era sempre doravante de alimentos, frutas, sementes ou animal; (2) o pagamento do dízimo não era feito em dinheiro porque o ofertante no ato da entrega participava por refeição junto com os órfãos, viúva, estrangeiros e levitas; (3) de acordo com a Lei, o dízimo só poderia ser levado no Templo em Jerusalém e nunca em outro lugar, Lv 27.32; Dt 12.17, 14.22-29; 26.12; 1 Sm 8.15-17; 2 Cr 31.5-11; Ne 10.34-39, Ml 3.10; Mt; 23.23; Lc 11.42.
Portanto, alguns interpretam pelo simples fato de não existir o dinheiro naquela época, então, ofereciam apenas alimentos e animais – o que não pode ser verdade:
Abraão aceitou as condições de Efrom, e pesou o dinheiro que ele tinha pedido na presença dos filhos de Het, isto é, quatrocentos siclos de prata em moeda corrente no comércio. (Genesis 23.16) BDJ-EP. (ênfase adicionada).
Outro fator considerável que comprova a existência da moeda corrente – dinheiro – é a permissão que a Lei confere em “vender” o dízimo. Entretanto, esta opção somente contempla aquele viajante que morava muito distante do Templo a fim de facilitar sua viagem até Jerusalém. Porquanto, ele não poderia oferecer o “dinheiro” como dízimo de toda a sua produção no Templo, mas deveria adquirir todo o material orgânico ou animal como foi estabelecido pela Lei para só então realizar o ato determinado pelo Senhor.
Mas, se for muito longo o caminho, de modo que não possas transportá-lo – porque o lugar escolhido pelo Senhor, teu Deus, para nele residir o seu nome é afastado demais, e Ele te cumulou de muitos bens – venderás o dízimo e, levando o dinheiro {dessa venda} em tuas mãos, irás ao lugar escolhido pelo Senhor, teu Deus. Comprarás ali com esse dinheiro tudo o que te aprouver, bois, ovelhas, vinho, bebidas fermentadas, tudo o que desejares, e comerás tudo isso em presença do Senhor, teu Deus, alegrando-te com tua família. Não negligenciarás o levita que vive dentro de teus muros, porque ele não recebeu como tu partilha nem herança. (Deuteronômio 14.24-27). BDJ-EP. (ênfase adicionada).
A Destruição do Templo e o Livro de Malaquias
Os Judeus estavam perdendo o prestígio na liderança pelos novos convertidos ao cristianismo. A decisão tomada no concílio em Jerusalém de que os gentios não eram obrigados a obedecer à Lei cerimonial, abriu o caminho para a emancipação espiritual das novas igrejas gentílicas em relação ao controle judaico, At 15.1-41. Enquanto isso, outra tensão aumentava cada vez mais entre judeus e seus senhores romanos. Dessa vez, uma nova corrupção envolvia a política do Estado entre os oficiais do Templo.
Com a conclusão do templo judeu em 64 d.C., milhares de homens ficaram sem trabalho, unindo-se ao descontentamento geral. Finalmente, em 66 d.C., os judeus se revoltaram, revelando suas intenções ao se recusarem a realizar o sacrifício diário ao imperador. (SHELLEY, 2004, p. 26). (ênfase adicionada).
Aconteceu algo semelhante com os oficiais do Templo quando se corromperam com paganismo na época de Ezequiel, Ez 8.1-18. Isso de fato deixa evidente quanto à disposição humana que é totalmente insuficiente para cumprir os mandamentos do Senhor. O juízo de Deus foi decretado contra os chefes do povo e contra a nação. E por este motivo, o Templo foi destruído e saqueado pelas forças estrangeiras por volta de 580 a.C. Embora esse evento demonstre à ira de um Deus Santo pela corrupção do homem, a história volta a se repetir em 70 d.C.
A trágica e sangrenta guerra que seguiu, custou mais vidas do que qualquer conflito anterior. Os judeus resistiram em esmagadora desvantagem por quatro anos, mas não suportaram o poder de Roma. Em 70 d.C., as forças do imperador Vespasiano, lideradas por Tito, atravessou as muralhas de Jerusalém, saqueou e queimou o templo levando os despojos para Roma. A cidade santa ficou totalmente destruída. Nas represálias que se seguiram, todas as sinagogas na Palestina foram inteiramente queimadas. (SHELLEY, 2004, p. 26).
Também existe uma grande dificuldade de interpretação quanto ao capítulo três no livro de Malaquias. É demasiadamente improvável reaplicar este ensino pelo simples fato de não existir mais o Templo – e sem o Templo não há sacrifícios, e na ausência dos oficiais, não há quem cumpra ou recolha os dízimos. Não podemos mudar o que foi escrito na Lei. Ademais, a sugestão torna-se harmônica quando é interpretada pelo fato que originou a denuncia pelo profeta Malaquias conforme a citação abaixo.
Estaríamos roubando ao Senhor? (cf. Malaquias 3.8). Por causa da negligência de Israel durante o período dos juízes, os levitas muitas vezes não recebiam dízimos suficientes para viver. Como resultado, alguns começaram a se desviar da fé a fim de encontrar alguma forma de substituir estes ganhos, e chegando até a praticar relacionamentos idólatras (Jz 17.7-10; 18.18-20).” (Wycliffe, 2010, p. 572-573). (ênfase adicionada).
Também é importante observar que o livro de Malaquias foi escrito como repreensão ao povo de Israel e não para a igreja de Cristo, veja: “Peso da palavra do SENHOR contra Israel, por intermédio de Malaquias.” (Malaquias 1.1) BEP-ARC. (ênfase adicionada).Outro argumento facultativo é pela advertência do Senhor aos sacerdotes que se corromperam. Ademais, assim foi também para com toda a sua posteridade.
Agora, ó sacerdotes, este mandamento é para vós. Se não ouvirdes e se não propuserdes, no vosso coração, dar honra ao meu nome, diz o SENHOR dos Exércitos, enviarei a maldição contra vós, e amaldiçoarei as vossas bênçãos; e também já as tenho amaldiçoado, porque não aplicais a isso o coração. Eis que reprovarei a vossa semente, e espalharei esterco sobre os vossos rostos, o esterco das vossas festas solenes; e para junto deste sereis levados. (Malaquias 2:1-3) BEP-ARC. (ênfase adicionada)
Não é a toa que eles foram reprovados e o Templo destruído posteriormente, (1) os sacerdotes violaram a aliança do Senhor com Levi, Ml 2.4-8; (2) além de estarem corrompidos, eram infiéis com suas esposas como também profanavam o santuário do Senhor, Ml 2.4-17; (3) estavam ofertando pão imundo como animais defeituosos, enfermos, coxos, cegos, etc., Ml 1.7-8.
Realmente a questão é rotineira! A revolta dos judeus contra o imperador romano descortinou uma estreita relação com o Estado pagão de Roma. Além do mais, o ápice do juízo veio na denuncia do próprio Cristo expulsando os cambistas e vendedores dentro do Templo. Evidentemente, o homem não conseguiu honrar o seu compromisso diante de um Deus Santo e vingador. Eles foram constantemente retaliados e a espada os consumia por terem se corrompido como uma mulher adúltera – tanto pelo “dinheiro” como pelas suas prostituições, Ez 16.32-40; Ml 2.14-15.
E, saindo Ele do templo, disse-lhe um dos seus discípulos: Mestre, olha que pedras, e que edifícios! E, respondendo Jesus, disse-lhe: Vês estes grandes edifícios? Não ficará pedra sobre pedra que não seja derrubada. (Marcos 13.1-2) BEP-ARC. (ênfase adicionada).
Cristo veio cumprir a Lei ou nos Fazer Cumprir?
Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição. (Mateus 5.17) BDJ-EP.
Cristo veio buscar o que havia se perdido, Mt 18.11; Lc 19.10. A iniciativa é Divina a fim de socorrer o homem que estava perdido, condenado e com a vontade restrita, Sl 14.2-3; Is. 59.4; Ez 22.30; Rm 3.9-12, 19, 23. Não houve ninguém na terra que cumprisse todas as exigências da Lei, Rm 8.3-4. Por esta razão, as escrituras falaram a respeito de Cristo, Lc 24.44; Jo 5.39. Entretanto, alguns interpretam a passagem de “Mateus 23.23” para dar continuidade no dízimo.
Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Pagais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais os preceitos mais importantes da lei: a justiça, a misericórdia, a fidelidade. Eis o que era preciso praticar em primeiro lugar, sem contudo deixar o restante. (Mateus 23:23) BEP-ARC. (ênfase adicionada).
Jesus não veio abolir a Lei, caso contrário, ele cancelaria sua missão e cairia na armadilha dos fariseus como um falso profeta por estar contra a Lei de Deus. Então, eles teriam algo do que acusá-lo. Mas não, Cristo veio cumprir a fim de fazer uma nova aliança e levar o homem a perfeição, Jr 31.31; Cl 2.10-17; Hb 8.13. Portanto, (1) Cristo não deu um novo mandamento para a Igreja – ao contrário – Ele adverte duramente os escribas/fariseus por cumprirem a Lei somente pela metade; (2) Somos justificados gratuitamente pela Sua graça, por meio do Seu sangue, pela redenção que há em Cristo Jesus e não pelo cumprimento da Lei moisaica como querem os judeus, Rm 3.24; Ef 1.7, 2.8-9; Cl 1.14; Tt 2.11; 1 Pe 1.10; (3) como Cristo não havia morrido, o plano de redenção para resgatar o homem da maldição da Lei ainda não estava consumado, Jo 19.28-30. Posteriormente a ressurreição, os apóstolos também não estavam convencidos de que as Escrituras falavam a respeito de Cristo e que “Ele” havia cumprido toda a Lei em nosso lugar, para que pela fé, recebêssemos a promessa do Espírito sob uma nova aliança, Gl 3.8-22.
O néscios, e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura não convinha que o Cristo padecesse estas coisas e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, e por todos os profetas, explicava-lhes o que dEle se achava em todas as Escrituras. (Lucas 24.25-27) BEP-ARC. (ênfase adicionada).
E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos. (Lucas 24:44) BEP-ARC. (ênfase adicionada).
É fundamental para a saúde da igreja compreender esse momento assim como o esqueleto é importante para o corpo humano. O sacrifício de Cristo foi totalmente suficiente, e de uma vez por todas, nos resgatou das obras da Lei fazendo-se maldito em nosso lugar, Rm 6.10; Hb 7.27, 9.12, 10.10; 1 Pe 3.18.
Pois quem guardar os preceitos da Lei, mas faltar em um só ponto, tornar-se-á culpado de toda ela. (Tiago 2.10) BDJ-EP. (ênfase adicionada). Observação: Por favor, leia novamente Mt 23.23 e observe a repetição do termo "preceitos da Lei" em junção com Tiago 2.10.
Partindo dessa premissa nos questionamos – mas o Dízimo não é bíblico? Certamente. Assim como também é bíblico a circuncisão, Gn. 17.23-27, o sacrifício de animais em holocausto, Lv. 1.1-6; 8.13, a santificação do sábado, Lv. 23.3, apedrejar adúlteros, Lv. 20.10; Dt. 22.22. A questão que permeia esse contexto é: Por que os movimentos atuais não cumprem a Lei na sua totalidade ao invés de optarem unicamente pelo dízimo? Então, serão culpados por toda a Lei. Recorde-se que os escribas e fariseus foram duramente exortados por Jesus quando observaram apenas os dízimos e não os demais mandamentos da Lei, Mt 23.23. Embora a história se repita, eles continuam fazendo agravo da graça pela lei do qual ninguém será justificado diante de Deus.
Todos aqueles, pois, que são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque está escrito: Maldito todo aquele que não permanecer em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las. E é evidente que pela lei ninguém será justificado diante de Deus, porque o justo viverá da fé. (Gálatas 3.10-11) BEP-ARC. (ênfase adicionada).
A IGREJA
Não é incomum que professemos uma eclesiologia, mas vivamos outra totalmente distinta. Nosso Senhor tem mostrado incomensurável misericórdia ao longo dos dois mil anos da fé cristã, mesmo quando a Igreja desviou-se bastante dos parâmetros do Novo Testamento quer por meio da forma que por meio das aparências. (HORRELL, 2006, p. 10-11). (ênfase adicionada).
Por quase dois mil anos, o comportamento de muitos cristãos vem professando algo bem distante dos parâmetros deixados pelos pais apostólicos. Ademais, nem a terminologia da palavra “igreja” escapou. E dependendo do dicionário ou da cosmovisão do autor, esta palavra pode ganhar uma perspectiva cultural muito diferente.
Talvez seja essa uma das razões por que muitos têm uma visão modificada quando o assunto é “igreja”. Para o Dicionário Escolar da Língua Portuguesa: “a Igreja é um templo cristão; autoridade eclesiástica; comunidade dos cristãos” (BUENO, 1960, p. 639). E para o dicionário americano Webster: “trata-se de um edifício para o culto público cristão; um ato religioso ou uma organização mundial de crentes”. (WEBSTER, 1997, p. 143). Mas esta é uma visão que parte do mundo secular. Portanto, a melhor proposta seria delinear esta palavra sob um ponto de vista linguístico, histórico e de cunho teológico.
O SIGNIFICADO DA PALAVRA IGREJA
Em tempos de tanta confusão teológica, não é aconselhável hoje confessar um possível cristianismo sem afirmar com clareza naquilo em que se crê. Rusconi nos dá uma indicação rápida sobre a terminologia da palavra igreja: “encontramos no Novo Testamento a palavra grega έκκλησία (ekklesia) que é traduzida por igreja. Esta é uma palavra composta de έκ (ek = de, para fora), e καλέω (kaleô = chamar), ficando então: chamar de, chamar para fora”. (RUSCONI, 2003, p.156).
A etimologia de ekklesia contribui para conhecermos o significado da palavra igreja. É composta de ek (para fora) e kaleô (chamar, convocar). Como Deus chamou seu antigo povo para fora do Egito e o conduziu para a Terra Prometida, ele chama pessoas para “fora do mundo” (“não se amoldem ao padrão deste mundo”, Rm. 12:2) para caminhar para “o alvo, a fim de ganhar o prêmio da chamada celestial de Deus em Cristo Jesus” (Fp. 3.14). (MULHOLLAND, 2004, p. 24). (ênfase adicionada).
Chamados para fora – talvez seja este o mais puro significado da palavra Igreja. Nos tempos antigos, quando o povo hebreu vivia sob a cultura egípcia, Deus os chamou para fora libertando o seu povo do regime pagão faraônico. E nos dias de Cristo não foi diferente, ele chamou para fora as suas ovelhas do sistema judaico que predominava naquele tempo. E por mais que haja controvérsias, a igreja moderna respira novamente esse sistema em suas denominações.
O prédio da Igreja, [...] um edifico que dá visibilidades e permanência. Se ele for novo, sentirmos bem com isso. Se for velho, sentimo-nos um pouco desconfortáveis (a menos que seja muito antigo e, por isso, sentiremos orgulhosos de novo). Dificilmente, percebe-se um grupo de cristãos se ele não tiver um prédio. [...] De maneira consciente ou não, o prédio da igreja no pensamento da maioria das pessoas é fundamental. O que ofertamos a Deus, ofertamos ali. O que fazemos para Deus, fazemos especialmente ali. Servir a Deus é servir na igreja. Para muitos cristãos, isso significa tanto onde servimos o que podemos realizar. (HORRELL, 2006, p. 17-18) (ênfase adicionada).
Observemos que os judeus precisavam do Templo para adorar a Deus – os cristãos também fazem o mesmo com os seus edifícios de tijolos. O famoso culto de domingo virou o “sabá” cristão. E quando o dízimo fora instituído como Lei para os israelitas (Israel Nacional), os judeus também cumpriam este ofício até o Templo ser totalmente destruído em 70 d.C. Entretanto, nos dias de hoje, ainda acontece algo bem parecido só que de maneira contrária com os gentios convertidos. Eles modificaram genericamente a Lei do Senhor para dizimarem em dinheiro nas suas congregações – e não no Templo de Jerusalém – como manda a Lei. Portanto, há duas graves contradições, (1) eles estariam roubando o Senhor se realmente quisessem cumprir a Lei, pois o lugar para depósito não é nas denominações, mas no Santo Templo do Senhor; (2) além do mais, mesmo que fossem até a Jerusalém dizimar, teriam que comprar espécies orgânicas para comerem junto com a sua família, com os pobres, órfãos, viúvas e com os Levitas – pois o dinheiro não era aceito como dízimo pelos oficiais do Templo.
Ao notar o comportamento da citação anterior, por acaso não nos lembra algum povo na Bíblia? Enquanto Deus chama o seu povo para fora de um sistema religioso, há aqueles que ainda desejam voltar para os rudimentos antigos rejeitando o sangue de Cristo, Gl 4.4-11. Ademais, a “igreja” é um templo – edifício de tijolos – onde o Espírito de Deus ainda habita ou o sacrifício de Cristo não foi suficiente? “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?” (1 Coríntios 3.16) BEP-ARC. (ênfase adicionada).
Tudo isso nos traz ao ponto principal de nossa discussão. Observemos que a “igreja” é originalmente uma entidade espiritual totalmente diferente do Templo, um organismo vivo sob o comando do Espírito Santo que passa a habitar dentro do homem. Afinal, Cristo não morreu por um edifício de tijolos, mas por suas ovelhas, Jo 10.15-30.
Isso estabelece a norma de uma vez por todas: o significado original de ekklesia “igreja”,não era uma hiper-organização de funcionários espirituais desligada da assembléia concreta (um clero). Denota uma comunidade reunindo-se num local especifico, a uma hora especifica, para uma ação especifica, uma igreja local, embora formasse com as outras igrejas locais uma comunidade abrangente, a igreja inteira. Assim, cada igreja local torna a igreja inteira plenamente presente; de fato, pode ser entendida – na linguagem do Novo Testamento – como povo de Deus, corpo de Cristo e edifício do Espírito. (KUNG, 2002, p. 30). (ênfase adicionada).
As Primeiras Comunidades
A história da igreja no Novo Testamento está sempre ligada com um grupo de pessoas que acreditavam em Cristo. Eles geralmente se reuniam em casas e não se consideravam uma denominação do apóstolo Paulo ou muito menos uma instituição criada por Pedro.
Os cristãos primitivos não concebiam a igreja como um lugar de culto como se faz hoje. Igreja significa um grupo de pessoas numa relação pessoal com Cristo. Esse grupo se reunia em casas (At. 12.12; Rm. 16.5-23; Cl. 4.15; Fm. 1-4), no templo (de Jerusalém) (At. 5.12), nos auditórios públicos de escolas (At. 19: 9). E nas sinagogas enquanto lhes permitiam fazer isso (At. 14.1-3; 17.1; 18.4). O lugar não era tão importante como o modo de se encontrarem para ter comunhão uns com os outros e cultuar a Deus. (CAIRNS, 2008, p. 70). (ênfase adicionada).
Por questões práticas, o lugar nunca foi importante – a igreja não era de tijolos e nem um clube com placas que “separa”. O que predominava para uma reunião ser estabelecida era comunhão entre os santos. E quando o Templo foi destruído em 70 d.C., provavelmente uma boa parte dos apóstolos já tinha morrido e as primeiras comunidades que foram fundadas por eles automaticamente passaram para outras mãos.
Por fim, podemos identificar onde há um cristão ou dois deles se reunindo, lá estará o Templo real de Deus. Portanto, este é o corpo de Cristo, a igreja invisível e habitação do Deus de Israel, 1 Co 3.9,16,17; 6.19-20. Agora o centro geográfico e das atenções não é mais Jerusalém, Israel – como muitos querem – mas é o Seu povo eleito, Rm 11.7; Ef 1.4-13, 5.32; 1 Pe 2.5-7.
Recebestes de graça, de graça dai
Velai sobre o rebanho de Deus, que vos é confiado. Tende cuidado dele, não constrangidos, mas espontaneamente; não por amor de interesse sórdido, mas com dedicação; não como dominadores absolutos sobre as comunidades que vos são confiadas, mas como modelos do vosso rebanho. E, quando aparecer o supremo Pastor, recebereis a coroa imperecível de glória. (1 Pedro 5.2-3) BDJ-EP. (ênfase adicionada).
O modelo de apascentamento que o Senhor Jesus Cristo deixou nas Sagradas Escrituras é totalmente transparente nos quatros Evangelhos – em nenhum momento observamos Jesus cobrando dos seus apóstolos o dízimo por cada ensinamento ministrado – a propósito, Cristo deixou uma mensagem muito clara: “de graça recebestes, de graça daí” (Mateus 10.8b) BEP-ARC. E isto está em plena harmonia com a visão neotestamentária, também não há registro dos apóstolos cobrando o dízimo nas igrejas pelo ensinamento ou por serviços prestados a comunidade – e nem há uma orientação para que os fieis procedessem assim.
Talvez seja possível encontrarmos “hoje em dia” algum rebanho sendo administrado espontaneamente por um líder de ânimo pronto. E partindo do princípio de que este rebanho não é seu, a responsabilidade é ainda maior. Se observarmos pela maneira quando alguém é chamado para fazer algum um trabalho – o patrão é o responsável pelo pagamento do seu salário e nunca os empregados – as ovelhas, Is 62.11; 1 Co 3.8; Cl 3.24; 2 Jo 1.8; Ap 22.12.
Assalariar pastores gera profissional remunerado. Isso os eleva sobre o restante do povo de Deus. Isso cria uma casta clerical que converte o corpo do Cristo vivente em um negócio. Na medida em que o pastor e seus assistentes são “pagos” para ministrar – eles tornam-se profissionais remunerados. O resto da congregação passa ou cai em um estado de dependência passiva. (VIOLA, 2005, p. 106) (ênfase adicionada).
Se todo cristão atendesse ao toque do chamado para ser um sacerdote funcional diante Senhor e desempenhar esse trabalho com dedicação e adoração, a questão que surgiria imediatamente é – Por que estamos pagando o nosso pastor? Afinal, o maior exemplo que temos foi de Cristo e dos apóstolos que repassaram o evangelho sem custo algum.
Devemos ter a coragem de mudar todos os tipos de coisas em nossos cultos. Ficar dentro dos limites do Novo testamento [...] Precisamos ensinar o cristianismo de conteúdo e de pureza de doutrina. Precisamos ter liberdade de mudar as coisas que precisam ser mudadas em nossa política e prática da Igreja. (SCHAEFFER, 1970, p. 110-11).
Implicações quanto a Sustentabilidade Eclesiástica
No entanto, alguns podem imaginar que a igreja sucumbiria se não cobrasse o dízimo – o que não é verdade. Do livro de Mateus até Apocalipse, as igrejas cresceram sem a ênfase neste recurso. Os apóstolos jamais pediram para as comunidades “quebrarem” a Lei do Senhor dizimando em suas congregações e muito menos em dinheiro – quer fosse para eles ou para um líder do grupo. Também não houve tais ensinamentos para as comunidades de Roma ou da Ásia pelas cartas Paulinas exortando os gentios trazerem o dízimo até a cidade de Jerusalém no Templo.
É importante salientarmos que naquela época (30 a 330 d.C.), não havia uma forma institucional ou denominacional da igreja. Somente após o ano de 320 que Constantino ergue os primeiros templos para a comunidade cristã. Entretanto, existe um documento anterior que destaca o comportamento da igreja primitiva nos primeiros séculos intitulada pelo nome de “Didaqué” ou “Ensinamento do Senhor através dos doze apóstolos”. Apesar de ser uma obra pequena com dezesseis capítulos, ela contém um grande valor histórico e teológico.
Esse Credo (Didaqué), claramente trinitariano, dá atenção à pessoa e à obra de cada uma das três pessoas da Trindade. Destaca a natureza universal da Igreja e, depois de fundamentar em Cristo a salvação, apresenta uma escatologia explícita centralizada na ressurreição dos crentes em seu alvo de obter a vida eterna. Muitas Igrejas até hoje consideram o Credo dos Apóstolos uma preciosa síntese dos pontos principais da fé cristã. (CAIRNS, 2008, p. 100).
Muitos estimam que os escritos sejam anteriores a destruição do templo de Jerusalém, entre os anos 60 e 70 d.C. Há também outras cópias que remetem o escrito pertencente entre os anos 70 a 150 d.C., contudo, são coesos quanto à origem sendo na Palestina ou na Síria. Quanto à autenticidade desse Credo, é unânime pelos estudiosos que não tenha sido escrito pelos doze apóstolos, ainda que o título do escrito lhes faça menção. Todavia, acredita-se na compilação de fontes orais recebidas pelo povo por ensinamentos anteriores no que resultou na elaboração do texto. O outro ponto facultativo é pela possibilidade da Didaqué ter sido escrito por mais de uma pessoa permitindo assim a sua reprodução.
Lendo a Didaqué, observamos o possível comportamento cristão daquela época. Em contrapartida, o texto apócrifo ou pseudo-epígrafe foi a “Bíblia” na mão de vários cristãos por muito tempo. Embora este credo seja anterior ao cânon bíblico, naquele momento, não havia ainda um cânon devidamente elaborado e por quais livros deveriam ser considerado inspirados. Dessa forma, temos a impressão que durante o período apostólico, os membros da igreja encontravam as verdades centrais da fé de várias maneiras. Porquanto, no início, os novos convertidos formulavam seus credos sob uma pequena base confessional de fé por terem apenas “partes” das Escrituras. “Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos. Mas quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado”. (1 Coríntios 13.9-10) BEP-ARC. (ênfase adicionada).
A Bíblia era apenas uma questão de tempo. Assim como os demais discípulos, o apóstolo Paulo possuía apenas uma parte da Revelação Escriturística. Somente depois quando todos os livros foram reunidos num só volume, terminou o que em “parte” conhecemos por Atanásio em 367 d.C. Todavia, esse grande momento foi também confirmado pelo Cânon Bíblico realizado no Sínodo de Hipona e de Cartago no final do século IV.
Escrita num estilo de fácil compreensão, a obra apresentada pela Didaqué demonstra uma preocupação de manter os principais pressupostos estabelecidos pelos apóstolos a fim de estimular os futuros cristãos professassem a mesma comunhão.
Se alguém disser sob inspiração: "Dê-me dinheiro" ou qualquer outra coisa, não o escutem. Porém, se ele pedir para dar a outros necessitados, então ninguém o julgue. Se quiser se estabelecer e tiver uma profissão, então que trabalhe para se sustentar. Porém, se ele não tiver profissão, proceda de acordo com a prudência, para que um cristão não viva ociosamente em seu meio. Se ele não aceitar isso, trata-se de um comerciante de Cristo. Tenha cuidado com essa gente. (DIDAQUE, 1997, p. 18) (ênfase adicionada).
Em todos os dezesseis capítulos do credo, em nenhum momento observamos qualquer confissão que pontuasse pelo “dízimo” ou por construções de “Templos”. Mas o que nos chamou a atenção foi na instrução acima por um comportamento prudente a fim de não deixar ninguém ser enganado pelos falsos comerciantes. Aparentemente, o padrão da igreja primitiva do século I e II apresentava uma vida normal em que o sustento partisse de cada um por meio do seu próprio trabalho. Portanto, o pensamento da Didaqué encontra harmonia escriturística quanto a instrução do apóstolo Paulo, veja:
Sabeis perfeitamente o que deveis fazer para nos imitar. Não temos vivido entre vós desregradamente, nem temos comido de graça o pão de ninguém. Mas, com trabalho e fadiga, labutamos noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós. Não porque não tivéssemos direito para isso, mas foi para vos oferecer em nós mesmos um exemplo a imitar. Aliás, quando estávamos convosco, nós vos dizíamos formalmente: Quem não quiser trabalhar, não tem o direito de comer. Entretanto, soubemos que entre vós há alguns desordeiros, vadios, que só se preocupam em intrometer-se em assuntos alheios. A esses indivíduos ordenamos e exortamos a que se dediquem tranqüilamente ao trabalho paramerecerem ganhar o que comer. (2 Tessalonicenses 3.7-12) BDJ-EP. (ênfase adicionada).
Entretanto, a igreja nunca dependeu dos credos para estabelecer uma regra de fé - Didaqué, Nicéia, etc. Esse sistema ofertado pelo homem tem sim uma grande importância histórica, porém, é virtualmente passível de erros. Portanto, são bastante úteis somente para comparação e análise de comportamento confessional do cristianismo que ganhou forma, identidade e prédios suntuosos na era de Constantino por volta do ano 320 d.C.
Mas no final no final do século VIII, dentro do cristianismo católico histórico, o Segundo Concílio Niceno também manifestou uma breve posição em seu credo referente ao comportamento que os bispos deveriam manter diante de qualquer renumeração.
Os Bispos devem abster-se quanto a todo recebimento de renumeração. Nós decretamos que nenhum bispo deve extorquir ouro ou prata, ou qualquer outra coisa. Segundo Pedro, o Apóstolo diz: "Apascentai o rebanho de Deus, não por necessidade, mas por vontade própria, e de acordo com Deus; não por torpe ganância, mas com uma mente alerta, não exercer domínio sobre as ovelhas, mas ser um exemplo para o rebanho”. Aqueles que lançam ofensas ao clero, porque foram ordenados na igreja sem receber uma renumeração, sofrerão uma penitência. (SCHAFF, 2005, p.794-795). (ênfase adicionada).
O dízimo foi ressuscitado por meio dos concílios regionais de Tours (567) e Mácon (585). Entretanto, foi somente com o “Imperador” Carlos Magno (779) que o tributo passou a ser veiculado pelos corredores das Igrejas na Europa. Ele também subdividiu a arrecadação dos pagamentos em três partes iguais, destinada à igreja paroquial, ao pároco e aos pobres. A princípio, o bispo não deveria receber nenhuma renumeração como pontuavam os concílios anteriores – talvez esta fosse à preocupação do segundo concílio de Nicéia destacado anteriormente.
Desta forma, o “dinheiro” provavelmente ganhou espaço no coração dos abades e uma disputa com o clero acirrou duros debates por quem deveria ter autonomia sobre os valores arrecadados. Por esta razão, o detrimento causado por esse sistema abriu novos caminhos para a corrupção interna que permitiu manchar varias páginas do cristianismo no passado por conspirações, indulgencias, luta pelo poder, etc. Um possível comportamento que ainda se faz presente virtualmente nas denominações.
Mas que relação tem o “Evangelho” com o “dinheiro”? Pode o homem modificar a Lei do Senhor genericamente para o interesse alheio? A igreja do Novo Testamento contempla um grupo de pessoas ou foi amortizada para um parâmetro de tijolos?
O CRISTIANISMO CATÓLICO HISTÓRICO
Passado o apogeu apostólico, aos poucos, o evangelho se espalhava intensamente por todo o império em meio às grandes perseguições. O último edito romano obrigava a todos os cristãos sacrifícios aos deuses pagãos sob a pena de morte caso rejeitassem. Eles também eram punidos com exílio, confisco de bens, prisões, execuções a espada ou entregues vivos a animais ferozes. As prisões de Roma andavam tão cheias de cristãos que não havia espaço para criminosos. Entretanto, Constantino foi o homem que transformou toda essa situação. Antes de derrotar o imperador Maxentius na batalha da Ponte Milvan, ele estava na dúvida se ia ou não vencer a guerra. Mas na véspera da batalha, viu uma cruz no céu do qual acreditou ser um sinal do Deus dos cristãos confirmando a sua vitória. E após ter vencido Maxentius e ter conquistado Roma no ano de 312, Constantino emite um edito que garantiu a liberdade de culto não somente aos cristãos, mas a todas as religiões.
O Historiador Eusébio aprovou esse momento e previu o começo de uma nova era de Salvação. Uma oportunidade única para pregar publicamente e desenvolver a paz interna com a finalidade de infundir a vida pública com o espírito do cristianismo. A conversão do mundo finalmente estava bem próxima, agora é uma questão de tempo para se tornar “católica” – que do latim para o português significa universal. “Por estas razões, os cristãos viram a ascensão de Constantino ao trono do Império como um ato de Deus. Como um instrumento de Deus para resgatá-los”. (VIOLA, 2005, p. 49).
Em contrapartida, os benefícios que o Estado ofereceu a igreja como a tolerância religiosa, construções de templos, isenções de impostos e o fim da perseguição aos cristãos detinham grandes interesses políticos. Em troca por paz e liberdade igual aos dos súditos do império, Constantino obtinha autonomia e simpatia sobre os clérigos que administravam a igreja.
Constantino submeteu os bispos cristãos enquanto eram seus funcionários civis e exigiu obediência incondicional aos pronunciamentos oficiais, mesmo quando eles interferiram nas questões puramente religiosas. Havia também as massas que então afluíam para a igreja oficialmente favorecida. Antes da conversão de Constantino, a Igreja consistia de crentes convictos. Depois, chegaram àqueles que eram politicamente ambiciosos, sem interesse religiosos e ainda meio enraizados no paganismo. Isso ameaçava não apenas futilidade e impregnação pelas superstições pagãs, mas também a secularização e o abuso da religião para fins políticos. (CAIRNS, 2008, p. 107).
Foi exatamente o que aconteceu. Graças a essa generosidade de Constantino, surgiram os primeiros prédios suntuosos para as igrejas baseados nos templos orientais pagãos. Essa estreita relação acabou aproximando o Estado, pagãos e cristãos que automaticamente acirraram grandes debates. A perda do controle sobre o povo começa a ser real, e para o império romano, era mais administrável controlar uma guerra a suscitar um conflito religioso.
Constantino reconhece que aqueles debates explosivos precisariam ser administrados, e a fórmula encontrada foi estabelecer um credo. Portanto, assim como a Lei regulamenta a ordem no Estado, um credo regulamentaria a ordem na igreja. E por volta do ano 325 d.C, convocou um concílio na cidade de Nicéia para tratar de questões teológicas, principalmente aquelas questões que Ário havia sacramentado entre o povo, do qual desafiou abertamente os mestres de Alexandria ao declarar que Jesus não era o verdadeiro Deus. Então, Constantino convoca todos os bispos para o concílio – e sentado no centro do templo – abriu a reunião lembrando os clérigos quanto à necessidade de um acordo sobre as questões que os dividia. Esta reunião ficou conhecida como o primeiro credo cristão ecumênico na história, um credo que ainda é padrão de ortodoxia em muitas igrejas:
Creio em Deus Pai Todo-poderoso, criador do céu e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis. E no Senhor Jesus Cristo, Filho único de Deus, gerado do Pai antes de todas as coisas. Deus de Deus, Luz da Luz, o Deus verdadeiro do Deus verdadeiro, gerado, não-criado, consubstancial ao Pai; de quem todas as coisas foram feitas; quem, para nós e para nossa salvação, desceu do Céu, e foi encarnado pelo Espírito Santo na virgem Maria, e se fez homem; e foi crucificado também por nós sob Pôncio Pilatos; sofreu e foi sepultado; e no terceiro dia ressuscitou, segundo as Escrituras; e subiu ao Céu, se sentou à direita do Pai; e deverá voltar novamente, com glória, para julgar os vivos e os mortos; cujo reino não terá fim. Creio no Espírito Santo, Senhor e fonte de Vida. Que veio do Pai e do Filho; que com o Pai e o Filho recebe a mesma adoração e a mesma gloria; quem falava através dos Profetas. Acredito também na Santa Igreja Católica e Apostólica. Reconheço o batismo para remissão dos pecados; eu espero a ressurreição dos mortos, e a vida do mundo que há de vir. Amém. (SHELLEY, 2004, p. 114-115).
Até aqui, a comunidade cristã não havia manifestado “oficialmente” pelo fechamento dos livros canônicos. Provavelmente, os romanos possuíam cartas paulinas que os alexandrinos desconhecessem, e nas mãos dos israelitas, os evangelhos do qual possivelmente Roma ainda não detinha. É notável que o Novo Testamento encontrava-se fragmentado em várias partes.
Contudo, havia um homem que faria contraste a esta situação e as demais regras confessionais de Constantino. E no ano 328 d.C., Atanásio, o famoso bispo de Alexandria, acusava o conselho de favorecer sutilmente a doutrina de Ário. Ele solicitava um novo concílio para que deixassem mais claro a natureza de Cristo e manifestou-se contra o sistema pagão do templo temendo a secularização da fé. Mas foi advertido pelo o Imperador Constantino por meio de uma carta:
Como você sabe, a minha vontade é permitir a entrada gratuita para todos aqueles que desejam entrar na igreja. Portanto, se eu ouvir que você tem impedido qualquer pessoa de se tornar um membro ou que tenham impedido a entrada de alguém, eu imediatamente mandarei alguém prendê-lo sob meu mando e você será deposto e enviado para o exílio. (THIEDE, 1990, p. 28).
Atanásio finalmente foi deposto por Constantino no ano de 335 e exilado na cidade de Trier – na Alemanha Ocidental – por não seguir os interesses crescentes do ecumenismo do Império Romano. Por alguma razão, Atanásio estava incomodado com o comportamento adotado pelo império Romano mediante ao novo método utilizado para abrigar a igreja e a veiculação do credo como “verdades da fé”. Ruth Tucker escreveu aquilo que Atanásio temia em relação à influência pagã:
O evangelismo vibrante que foi realizado durante o período pós-apostólico começou a minguar no início do século IV durante o reinado do Imperador Constantino. O cristianismo tornou-se religião de Estado, e como resultado, as igrejas estavam cheias de cristãos nominais, que tinha menos preocupação com as questões espirituais do que para a política e prestígio social. O Cristianismo tornou-se moda. Construir edifícios substituiu à simples casas que comportava as igrejas, e os credos, substituíram os depoimentos espontâneos e as orações. A necessidade de evangelismo agressivo parecia supérflua – pelo menos dentro o mundo romano civilizado. (FANNING, 2009, p. 20). (ênfase adicionada).
Depois da morte de Constantino em 337, o império Romano começa a dar os primeiros indícios de fragilidade, sua força política e até governamental já não é mais a mesma. E diante dessa vulnerabilidade, Atanásio retorna ao seu bispado em 366 defendendo habilmente a fé contra a oposição judaica, pagã e ariana. Mas a sua maior contribuição ainda estava por vir, e seria no ano de 367 d.C., quando o bispo de Alexandria reuniu de uma forma expressiva e convincente os livros para o fechamento do cânon. E por meio da sua trigésima nona carta oriental, listou como canônicos vinte e sete livros: Mateus, Marcos, Lucas, João, Atos dos Apóstolos, Romanos, I Coríntios, II Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, I Tessalonicenses, II Tessalonicenses, I Timóteo, II Timóteo, Tito, Filemon, Hebreus, Tiago, I Pedro, II Pedro, I João, II João, III João, Judas e Apocalipse. Esta carta foi enviada para todas as igrejas sob sua jurisdição terminando com todas as especulações sobre os limites do cânon do Novo Testamento.
Em 367, Atanásio, o bispo de Alexandria, influente e altamente ortodoxo, escreveu sua famosa carta oriental. Nesse documento, enumerava os 27 livros que hoje fazem parte do nosso Novo Testamento. Na esperança de impedir que seu rebanho caminhasse rumo ao erro, Atanásio afirmou que nenhum outro livro poderia ser considerado escritura cristã, embora admitisse que alguns, como o Didaquê, pudessem ser úteis para devoções particulares. (KENNETH, 2003, p. 33). (ênfase adicionada).
A lista de Atanásio não encerrou esse assunto sozinho. No final do século IV, dois concílios posteriores também confirmaram a canonicidade enumerada por Atanásio em 367, estes concílios foram conhecidos na história como o Sínodo de Hipona em 393 e o III Concílio de Cartago em 397. No final, a carta de Atanásio foi recebendo aceitação geral por todos os Concílios em todo o mundo – o que era antes “em partes” agora é a soma da verdade e absoluta autoridade incontestável.
Assim como o apóstolo Paulo, Atanásio estava preocupado com o comportamento da igreja, algo precisava ser feito. Pagãos, judeus e arianos estavam investindo pesado contra o cristianismo. Os reflexos das suas doutrinas eram virtualmente visíveis no concílio de Nicéia e em Constantinopla no ano de 381. E de maneira similar no Concílio de Éfeso em 431 e Calcedônia em 451, ambas decaíram muito na forma confessional. Mas a resposta veio com o cânon fechado. Agora, os fiéis podem formular um novo consenso – pois existe uma autoridade máxima. E quando ela é observada, poderá corrigi-los, exortá-los e edificá-los para que o homem de Deus seja perfeito, 2 Tm 3.16. Uma importante instrução a fim de impedir as excentricidades doutrinárias que ocorreram também na igreja de Coríntios, 1 Co. 14.
Toda Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, eperfeitamente preparado para toda boa obra. (2 Timóteo 3.16-17) BEP-ARC. (ênfase adicionada).
Em geral, ao aceitarmos a possibilidade para o quando vier o que é perfeito – a Bíblia Sagrada – então somos impulsionados a crer que a profecia do apóstolo Paulo escrita em 1 Co 13.8-10 se cumpre no fechamento do cânon Bíblico. O conceito que a igreja tem nas mãos é a soma da Palavra de Deus e não mais em partes for realmente verdade, automaticamente, o que era em partes foi aniquilado e os demais cessaram.
Que momento importante na história. Agora a igreja tem uma poderosa ferramenta nas mãos, que em forma, é a soma da palavra de Deus, a verdade e a autoridade inquestionável. Definitivamente, os apologistas cristãos podem combater de maneira hábil contra as duras investidas dos hereges nos concílios posteriores.
OS PRIMEIROS TEMPLOS E A INFLUÊNCIA PAGÃ (O OUTRO LADO DA MOEDA)
“A história de Constantino (285-337 d.C.) abre uma página tenebrosa na história da cristandade. Foi ele quem iniciou a construção dos edifícios eclesiásticos”. (VIOLA, 2005, p. 49). Constantino foi o útero que gerou os primeiros templos para os cristãos na história. Sua gestação entra em cena nas vésperas da batalha quando viu uma cruz no céu com as palavras escritas em latim “com este símbolo vencerás”. E assim aconteceu. Constantino derrotou o imperador Maxentius na Batalha da Ponte de Milvio, perto de Roma, no ano 312 d.C. E quando se tornou Imperador Romano em 324, começa a ordenar as construções das igrejas.
Os edifícios das igrejas construídas por Constantino eram desenhados exatamente conforme o modelo da basílica, segundo o estilo dos templos pagãos. [...] Com assentos extremamente confortáveis para acomodar as pessoas dóceis e passivas que presenciavam os eventos. Esta foi uma das razões pelas quais Constantino escolheu ao modelo da basílica. [...] No centro do edifício ficava o altar [...] em frente ao altar havia a cadeira do Bispo chamada de cátedra, [...] o poder e a autoridade repousavam nessa cadeira [...] os anciãos e diáconos se sentavam em ambos os lados [...] é interessante que a maioria dos edifícios das igrejas modernas possuem cadeiras especiais para o pastor e seus auxiliares situadas sobre a plataforma atrás do púlpito. Assim como no caso do trono do Bispo, a cadeira do pastor geralmente é a maior! Tudo isso são vestígios da basílica pagã. (VIOLA, 2005, p. 52-54). (ênfase adicionada).
A estrutura do sistema denominacional moderno tem sua herança em Constantino e não nos moldes do que foi deixado pela a Igreja apostólica. Não existem registros bíblicos ordenando os cristãos a construírem templos, mas há uma ampla evidência deles se reunindo em casas, At 2.46, 8.3, 20.20; Rm 16.3-5; 1 Co 16.19; Fm 2; 2 Jo 10. Portanto, essas referências não só identificam o comportamento desse organismo como dão a atribuição devida para igreja. Embora a proposta do paganismo tenha uma disposição para modificar essa ideologia, qualquer estudante de história poderá observar que a operação eclesiástica criada por Constantino tem se distanciado dos moldes de uma maneira absolutamente oposta do padrão que foi deixado pelo Novo Testamento.
Assim, encontramos a matriz ideológica desse movimento em Constantino. A influência pagã foi quem redefiniu pelos seus costumes uma nova estrutura eclesiástica na história do cristianismo universal – ou católico.
A igreja cristã uniu-se ao poder do Estado e assumiu a responsabilidade moral por toda a sociedade. Para servir ao Estado, sua doutrina foi refinada e sua estrutura desenvolvida. Os monges se levantaram para protestar contra a secularização da fé [...] alguns historiadores consideraram a “conversão” de Constantino uma manobra meramente política. Ainda lhe restava muito paganismo. Ele conspirava, assassinava; até mesmo conservou seu título Pontifex Maximus como o nome do culto religioso do Estado. (SHELLEY, 2004, p. 99, 105). (ênfase adicionada).
A construção de templos para que os cristãos pudessem se reunir num único lugar pode ser considerado uma manobra política de Constantino. Com isto, Ele teve a chance de persuadí-los de uma única vez – quando dantes, nunca o pôde por estarem todos dispersos. E diante das propostas de paz e liberdade, os cristãos não precisavam fazer as reuniões escondidos em casas, catacumbas ou fugirem do fio da espada.
Tirados para fora como uma camponesa prometida a um rei, o cristianismo ecumênico católico nasce dentro dos palácios do império romano, ganha roupas novas, um anel no dedo e templos suntuosos para manifestar sua fé em troca de submissão e favores. Por acaso, isso não lembra a história de algum povo na Bíblia? “Aqueles que não rememoram o passado estão condenados a repeti-lo”. (VIOLA, 2005, p. 5).
De Volta ao Passado
Na antiguidade, Israel pecou gravemente contra Deus por terem feito alianças com vários povos pagãos. As trocas de favores por paz, mantimentos, idolatria, corrupção e interesses políticos foi o apogeu para que terríveis batalhas, cativeiros e exílios os retaliassem, Nr 16.46; Jz 2.2, 2.20; 2 Rs 17.15, 18.12, 22.13; Sl 50.16, 106.40; Is 5.13, 25, 24.5; Jr 13.19; Ez 39.23.
Mas tu desamparaste o teu povo, a casa de Jacó, porque se encheram dos costumes do oriente e são agoureiros como os filisteus; e associam-se com os filhos dos estrangeiros. (Isaías 2.7) BEP-ARC. (ênfase adicionada).
Como escreveu o Rei Salomão: “de modo que nada há de novo debaixo do sol”. (Eclesiastes 1.9) BEP-ARC. E este conceito deveras é verdade, pois desde o mundo antigo, o homem apenas troca a capa do disco – mas a musica é sempre a mesma.
A teoria tradicional sugere que as primeiras sinagogas foram estabelecidas no exílio babilônico – num país pagão – em virtude do povo hebreu estar fora da sua nação. Como o Templo e a cidade de Jerusalém haviam sido saqueados e destruídos, esta era uma das maneiras deles se reunirem na Babilônia.
É neste contexto do cativeiro que surge a sinagoga, (do grego sunagogé “congregação”) que, embora não esteja registrada em nenhum texto do Antigo Testamento, encontra-se amplamente citada nas paginas neotestamentárias (57 vezes). Os historiadores dizem que, nos dias de Jesus, havia 450 sinagogas. [...] Na comunidade judaica pós-cativeiro, graças à influência helênica, surgiu, também, o Sinédrio (do grego sunedrion “sentar no concílio”), uma assembléia suprema que decidia com absoluta liberdade sobre as questões religiosas dos judeus, em especial nos dias de Jesus. (SANTOS, 2009, p. 76-77). (ênfase adicionada).
Mesmo com os hebreus tendo regressado para sua terra após o exílio, essas duas “instituições” foram mantidas em Israel até mesmo quando o Templo foi novamente erguido e quase finalizado na época de Jesus. A liturgia da sinagoga era considerada complementar e não substituta do culto no Templo. Embora houvesse grande contraste, no Templo, tudo era executado somente pelos oficiais; nas sinagogas, tudo dependia da organização laica do povo. A leitura das Escrituras e o eco das orações predominavam nesse ambiente que de certa forma, seria uma plataforma baixa do Templo no modelo “independente”. Ali os escribas e fariseus davam uma uniformidade e expressão do culto, pois tinham a liberdade de manifestarem suas ideias e interpretavam para o povo a Lei do Senhor.
Embora a sinagoga não fosse de forma alguma oposta ao Templo, isso não a tornava simpática ao sacerdócio. Os escribas leigos estavam mais próximos do seu coraçãodo que os sacerdotes. Não há duvida de que os escribas fariseus tiveram muita influência nas sinagogas da terra de Israel nos anos 100 a 150 antes da queda do Templo. (SKARSAUNE, 2004, p. 123). (ênfase adicionada).
Neste aspecto, a erudição neotestamentária está em harmonia de que a igreja primitiva fora “chamada para fora” para ser algo totalmente diferente de um sistema tradicional com características e influências pagãs. Por alguma razão, os fariseus fizeram da sinagoga um braço genérico estendido do Templo. Provavelmente, a plataforma do Sinédrio em meio à política e tradição judaica não era suficiente. “Vale destacar que na sinagoga era uma instituição de leigos” (SKARSAUNE, 2004, p. 121).
Condutores cegos! Que coais um mosquito e engolis um camelo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de iniquidade. (Mateus 23.24-25) BEP-ARC. (ênfase adicionada).
Poucos percebem que este fator também é preponderante nos dias atuais. Quase 51% dos líderes ou pastores nunca leram a Bíblia Sagrada por inteira pelo menos uma vez na vida. O resultado é fruto de uma pesquisa feita pelo atual editor e jornalista da Abba Press & Sociedade Bíblica Ibero-Americana Oswaldo Paião com 1255 entrevistados de diversas denominações.
A NOVA ORDEM RELIGIOSA DENOMINACIONAL
Uma nova ordem de liturgia do cristianismo foi encontrada na Europa entre os séculos XVII e XVIII. Essas instituições “independentes” ficaram conhecidas como um movimento denominacional pela liberdade que tinham de pregar as Sagradas Escrituras e de veicular suas teorias como doutrinas bíblicas transformando-as em verdades centrais da fé cristã.
A palavra denominação para descrever um grupo religioso passou a ser utilizada por volta de 1.740, durante o início do Reavivamento Evangélico liderado por John Wesley e George Whitefield. Mas a teoria em si foi elaborada um século antes por um grupo de líderes radicais puritanos na Inglaterra e na América do Norte. O denominacionalismo, como originalmente era designado, é o oposto do sectarismo. Cada seita clama para si, exclusivamente, a autoridade de Cristo. Acredita-se que é o verdadeiro corpo de Cristo; toda verdade lhe pertence, e não a nenhuma outra religião. (SHELLEY, 2004, p. 341). (ênfase adicionada).
O surgimento da forma denominacional marcou profundamente os últimos séculos da história cristã. E desde as suas primeiras aparições no século XVIII, os grupos que surgiam eram criados de acordo com a necessidade local ou pela diversidade na expressão da fé. Categoricamente, essas denominações também são classificadas de cristianismo moderno ou fundamentalista – por acreditarem que toda a verdade da Bíblia está devidamente centrada em suas doutrinas, e fora deles, não há salvação e nem erro de interpretação das Sagradas Escrituras.
O FAMOSO “SÉCULOS DAS HERESIAS”
A origem dos movimentos denominacionais tem muito haver com as conversões em massas provocadas pelos missionários americanos e europeus. A corrida pela evangelização estava aberta, e o palco que recebia os bravos missionários era na América do Norte. Havia um esforço em prol de missões nacionais e estrangeiras, a consequência foi significativa porque houve um grande repovoamento a favor do cristianismo entre o século XVIII a XX. Alguns teólogos preferem chamar esse período de “avivamento”. Todavia, nem todos dizem o mesmo; pois o avivamento para muitos foi um “repovoamento de simpatizantes”. Entretanto, a pretensão não é invalidar o avivamento em si, o propósito dessa pesquisa é remontar o cenário e facultar um pensamento onde nem todos os missionários que lançaram as mãos na América eram idôneos ou caminhavam sob a mesma confissão de fé.
O crescimento das comunidades urbanas indexadas ao cristianismo trouxe problemas árduos para o solo norte-americano. Desde o século XVIII, a comunidade nos Estados Unidos começa a conhecer seus primeiros desafios. Além dos índios nativos, o país recebeu milhões de irlandeses, alemães, ingleses, franceses, italianos e judeus que imigraram para a América do Norte. Muitos deles fugiam em busca de uma nova vida, da crise religiosa-política ou do recrutamento militar na Europa. Desde então, os Estados Unidos foi um dos países que mais recebeu contingentes de imigrantes que se tem registro na história.
Porquanto, vários movimentos que surgiram nos séculos citados anteriormente foram radicalmente audaciosos. Além de apresentar uma nova teologia ao cristianismo, muitos pregadores colocavam suas teorias – interpretação – da Bíblia como “doutrina” final e inquestionável. As pregações, visões e experiências obtinham crédito e fascínio do povo que selaram esta idéia como uma “verdade inspirada” assim como também é atribuída para a Bíblia Sagrada.
Infelizmente, o elemento místico interpretativo e empírico dos pregadores a respeito das Sagradas Escrituras reformularam novos conceitos para vários movimentos cristãos como filosofia central e teológica. Afinal, o que está revelado ainda carece da interpretação humana? E daquilo que não está; cabe ao homem agora interpretar? Veja o que diz a Bíblia:
O que está oculto pertence ao Senhor, nosso Deus; o que foi revelado é para nós. (Deuteronômio 29:29) BDJ-EP. (ênfase adicionada).
Antes de tudo, sabei que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação pessoal. (2 Pedro 1.20) BDJ-EP. (ênfase adicionada).
Mas alguém questionaria: "a interpretação não é importante?" Não temos dúvida que sim. Entretanto, a interpretação humana com respeito às Sagradas Escrituras deveria ser tratada como teoria e não passar a barreira de uma possibilidade secundária. Esse limite deve ser respeitado a fim de preservar a fé, a consciência, o fechamento do cânon das Sagradas Escrituras e a boa ciência. Caso contrário, qualquer um que tiver uma interpretação da Bíblia será a "voz da verdade"? Imagine a divisão que isso pode proporcionar se a interpretação for pregada como uma possibilidade primária – doutrina, verdade – no meio dos santos. Que haja temor no coração dos pregadores quando fomentarem qualquer idéia das Sagradas Escrituras. E com respeito a Bíblia, deixem claro que se trata de uma visão pessoal, pois somente a palavra de Deus é a verdade absoluta e inspirada: "sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso." (Romanos 3.4) BDE-ARC.
Muitos os seguirão nas suas desordens e serão deste modo a causa de o caminho da verdade ser caluniado. Movidos por cobiça, eles vos hão de explorar por palavras cheias de astúcia. Há muito tempo a condenação os ameaça, e a sua ruína não dorme. (2 Pedro 2.2-3) BDJ-EP.
Porque virá tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina da salvação. Levados pelas próprias paixões e pelo prurido de escutar novidades, ajuntarão mestres para si. (2 Timóteo 4.3) BDJ-EP. (ênfase adicionada).
É necessário ter cuidado com a “nova revelação” e a quantidade de informações que são despejadas dos púlpitos sob as plataformas denominacionais. A pergunta é: a Bíblia, aparentemente, não é mais suficiente por aquilo que ela por si só se revela na leitura? Por acaso, esqueceu de alguma coisa o Espírito Santo na sua Santa Palavra? Afinal, quem tem a autoridade absoluta e é considerara inspirada por Deus? Isso quando a Palavra não é “ofuscada” pelo homem que ganha destaque – glória – juntamente com as suas próprias revelações. Que grande responsabilidade! A interpretação tomando o lugar da Verdade nos corações dos ouvintes.
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