Mas, antes de prosseguirmos propriamente com o exame da obra e serviço dos Levitas, devemos contemplar por um momento a cena em Exo_32:1-35, na qual desempenham uma parte muito importante e notável. Referimo-nos, como o
leitor compreenderá imediatamente, ao bezerro de ouro. Durante a ausência de Moisés, o povo perdeu tão completamente de vista Deus e os Seus direitos que levantou um bezerro de fundição e se prostrou diante dele. Este terrível ato exigia um juízo sumário.
"E, vendo Moisés que o povo estava despido, porque Arão o havia despido para vergonha entre os seus inimigos, pôs-se em pé Moisés, na porta do arraial e disse: Quem é do SENHOR, venha a mim. Então se ajuntaram a ele todos os filhos de Levi. E disse-lhes: Assim diz o SENHOR, o Deus de Israel: Cada um ponha a sua espada sobre a sua coxa; e passai e tornai pelo arraial, de porta em porta, e mate cada um a seu irmão, e cada um a seu amigo e cada um a seu próximo. E os filhos de Levi fizeram conforme a palavra de Moisés; e caíram do povo, aquele dia, uns três mil homens. Porquanto Moisés tinha dito: Consagrai hoje as vossas mãos ao SENHOR porquanto cada um será contra o seu filho e contra o seu irmão; e isto para ele vos dar hoje bênção" (Exo_32:25-29).
Foi um momento de prova. Não podia ser de outra maneira, visto que se dirigia ao coração e à consciência a grande questão, "Quem é do Senhor?- Nada podia ser mais penetrante. A pergunta não era "Quem quer trabalhar" Não; era uma pergunta muito mais profunda e premente. Não se tratava de saber quem iria aqui ou ali fazer isto ou aquilo. Podia haver muita ação e movimento, e, ao mesmo tempo, ser apenas o impulso de uma vontade indomável, que, agindo segundo a natureza religiosa, dava uma aparência de devoção e piedade eminentemente calculada para se enganar e enganar outros.
Mas estar do lado do Senhor envolve a renúncia da vontade própria - sim, a própria rendição, e isto é essencial ao servo verdadeiro ou ao verdadeiro obreiro. Saulo de Tarso encontrava- -se neste terreno quando exclamou: "Senhor, que queres que eu faça?-" Que palavras, do obstinado, cruel e feroz perseguidor da Igreja de Deus!
"Quem é do Senhor"? É o leitor? Examine-se e veja. Examine-se atentamente. Lembre-se que a questão não é de modo algum, "Que estás fazendo?-" Não; é mais profunda.
Se estais do lado do Senhor, estais pronto para qualquer coisa e todas as coisas-pronto para estar quieto e pronto para ir avante; pronto para ir para a direita ou para a esquerda; pronto a ser ativo ou estar sossegado; pronto a
manter-se de pé ou estar deitado. O ponto importante é este: o abandono próprio aos direitos de outrem, e esse é Cristo, o Senhor.
Isto é um assunto de grande alcance. De fato, não conhecemos nada mais importante, neste momento, que esta importante pergunta: "Quem é do Senhor?" Vivemos em dias de muita obstinação. O homem exulta com a sua liberdade. E isto dá-se, de modo proeminente, em assuntos religiosos. Precisamente como acontecia no acampamento de Israel, nos dias do capítulo trinta e dois de Êxodo - os dias do bezerro de ouro. Moisés estava ausente e a vontade humana estava operando; o buril foi posto em ação. E qual foi o resultado"?- O bezerro de fundição; e no seu regresso Moisés encontrou o povo nu e na idolatria. E então fez-se a pergunta solene e indagadora: "Quem é do Senhor?” Isto obrigava a uma decisão, ou, melhor, punha o povo à prova. Tampouco é diferente agora. A vontade do homem domina sobretudo em assuntos de religião.
O homem gloria-se dos seus direitos, da liberdade da sua vontade e livre arbítrio. E a negação do senhorio de Cristo; e portanto convém mantermo-nos em guarda e certificarmo-nos de que tomamos realmente partido com o Senhor contra nós mesmos; que tomamos a atitude de simples sujeição à Sua autoridade. Então não estaremos ocupados com o volume ou caráter do nosso serviço; será nosso único objetivo fazer a vontade de nosso Senhor.
Ora, atuar assim debaixo da direção do Senhor pode muitas vezes dar a impressão de estreiteza na nossa esfera de ação; mas com isto não temos absolutamente nada que ver. Se um amo diz ao seu criado para permanecer na sala e não se mover enquanto ele não tocar a campainha, qual é a obrigação daquele servos Evidentemente estar quieto e não abandonar esta posição ou atitude, ainda que os seus conservos considerem uma falta a sua aparente inatividade e ociosidade; pode estar certo de que o seu amo aprovará e justificará a sua conduta. Isto é bastante para todo o servo consagrado, cujo único desejo for não tanto fazer muita coisa, mas sim fazer a vontade do seu Senhor.
Em suma, a questão para o acampamento de Israel, nos dias do bezerro de ouro, a questão para a Igreja, nestes dias de vontade humana, é esta, "Quem é do Senhor? Que momentosa questão! Não consiste em perguntar quem está do lado da religião, da filantropia, ou da reforma morais Pode praticar-se largamente uma ou todas estas coisas e contudo ter uma vontade inteiramente indomável. Não esqueçamos isto; pelo contrário, diremos antes que devemos ter isto continuamente em vista. Podemos ser muito zelosos em promover todos os diversos sistemas de filantropia, religião e reformas morais, e, durante todo o tempo, estarmos a servir o ego e a vontade própria. E uma consideração ponderosa e solene; e é conveniente prestarmos-lhe a mais sincera atenção.
Atravessamos uma época em que a vontade do homem é constantemente lisonjeada. Cremos, sem sombra de dúvidas, que o verdadeiro remédio para este mal se encontra envolvido nesta interrogação: "Quem é do Senhor?" Existe um imenso poder prático nesta pergunta. Estar realmente do lado do Senhor é estar pronto para qualquer coisa que Ele possa julgar própria para nos chamar, não importa o que for. Se a alma está disposta a dizer verdadeiramente
"Senhor, que queres que eu faça?- Fala, Senhor, for que o teu servo ouve", então estamos prontos para todas as coisas. Por isso no caso dos Levitas, eles foram chamados para matar "cada um o seu irmão, cada um o seu companheiro, cada um o seu vizinho". Era uma tarefa terrível para a carne e o sangue. Porém as circunstâncias requeriam-no.
Os direitos de Deus haviam sido desonrados aberta e descaradamente. A invenção humana havia entrado em ação com o cinzel e um bezerro havia sido levantado. A glória de Deus havia sido convertida em semelhança de um boi que come erva; e portanto todos os que estavam do lado do Senhor foram convidados a cingir a espada. A natureza podia dizer: "Não; sejamos indulgentes, compassivos e misericordiosos. Conseguiremos mais por benevolência do que por severidade. Nenhum bem pode haver em ferir as pessoas. Existe muito mais poder em amor do que no rigor. Amemo-nos uns aos outros. Assim poderia a natureza humana ter feito as suas sugestões-podia argumentar e racionar desta forma. Porém, a ordem era clara e terminante, "Cada um ponha a sua espada sobre a sua coxa". A espada era a única coisa que era de utilidade enquanto estivesse ali o bezerro de ouro.
Falar de amor em semelhante momento seria escarnecer dos direitos do Deus de Israel. Compete ao verdadeiro espírito de obediência prestar o próprio serviço que convém às circunstâncias.
Um servo não tem que raciocinar, deve, simplesmente, fazer o que se lhe manda. Fazer uma pergunta ou expor uma objeção é abandonar o nosso lugar de servo. Poderia parecer uma tarefa terrível matar um irmão, um companheiro ou um vizinho. Porém a Palavra do Senhor era imperativa. Não deixava lugar para pretextos; e os levitas, por graça, mostraram uma pronta e completa obediência. "E os filhos de Levi fizeram conforme à palavra de Moisés".
Extraído de Notas sobre o Pentateuco – C. H. Mackintosh

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